sábado, 27 de fevereiro de 2016

O ABRAÇO DA SERPENTE

O início chamou a atenção logo de cara: um índio sarado, com bumbum trabalhado e corpo musculoso? Nos primeiros anos do século passado? Relevei. 

Mais tarde descobriria, ao ler algumas críticas sobre o ABRAÇO DA SERPENTE, que o novato ator Nilbio Torres rema todos os dias para cultivar seu campo de mandioca e banana na comunidade Santa Marta, em plena bacia amazônica, na fronteira da Colômbia com o Brasil. No filme, ele é Karamakate, curandeiro de uma etnia que acredita extinta e que recebe, com um intervalo de quarenta anos, duas visitas inesperadas de homens brancos. 


O preto e branco da floresta são os ingredientes mágicos dessa viagem aos mistérios, histórias, feridas e lendas de uma Amazônia pouco conhecida.O diretor colombiano Ciro Guerra se inspirou nos relatos de dois cientistas,  o antropólogo alemão Theodor Kroch Gunberg (1862-1924) e o botânico norte-americano Richards Evan Schultes (1915-2001) para escrever - com Jacques Toulemonde Vidal - e dirigir uma saga ao mesmo tempo política e espiritual. 

Política porque retrata, já nos anos 10 e 20 do século passado, a devastação da floresta e as torturas sofridas pelos índios - tanto no trabalho escravo da extração da borracha como sob o domínio de padres da igreja católica que tiram dos nativos o direito de falar o próprio idioma. O resultado da opressão são movimentos de fanatismo que se alastram no coração da floresta entre a submissão dos escravos da borracha e os gritos lancinantes de crianças que estão sob os cuidados da religião católica depois do massacre que dizimou milhares de índios. Horror. 

Espiritual porque transporta o espectador para um mundo estranho aos dias de hoje. Um xamã em comunhão absoluta com a natureza que resiste à cultura do homem branco, mas que ao longo da vida aprende a praticar a tolerância e a compaixão. Testemunhar sua intimidade com o ambiente que o cerca - tanto na juventude como na velhice - é um prazer que poucas vezes desfrutei no escurinho do cinema. Sublime.

A fotografia em preto e branco de David Gallego só faz adensar o poder da floresta e os conflitos narrados a partir dos relatos dos dois cientistas. É como se toda a narrativa se preparasse para uma única explosão colorida, um momento de beleza e introspecção que vai mexer com a sua sensibilidade. Chacoalhou a minha.  

O filme poderia ser um pouco menor (tem 125 minutos) ,com o corte de algumas sequências. Mas nada disso diminui o impacto de mergulhar na selva amazônica em busca de plantas que curam e fazem sonhar. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

APOSTA NA BOA FÉ DOS MORTAIS

Um crítico de cinema americano escreveu que A GRANDE APOSTA ou THE BIG SHORT poderia ser definida como uma " American Horror Story". É, pode ser. Mas uma história de horror escrita com a dose perfeita de cinismo, crueldade, indignação e bom humor, coisa rara nos dias de hoje. 

O diretor Adam McKay deve ter sentado com o roteirista Charles Randolph para dar um tapa no roteiro e, depois de muitos rascunhos, chegou à seguinte conclusão, compartilhada com o parceiro: " pinga as  gotas roxas no seu chazinho enquanto eu misturo as ervas na minha vitamina e.... mandamos bala. Esse roteiro tem que ser rodado com os sentidos alterados pra tentar chegar minimamente perto da sacanagem que essa turma do dinheiro, o tal do Sistema, organizou contra todos nós em 2008".

E assim foi. Ou imagino que tenha sido construída essa adaptação do livro reportagem de Michael Lewis - A JOGADA DO SÉCULO - para o cinema.

O resultado é que nós, espectadores, recebemos a carga de adrenalina necessária para acompanhar uma sequência maluca de diálogos em "financês" que, aos poucos, vai fazendo todo o sentido. A montagem, sensacional, utiliza recursos sonoros e audiovisuais a explicar o que, afinal, foi essa tal bolha que estourou e deixou milhões de pessoas sem casa e sem emprego. Uma história contada com a ousadia necessária para não permitir que pairem dúvidas sobre quem são os bandidos desse esquema fraudulento que até hoje não condenou sequer um banqueiro celebridade. 

Não vou esquecer a explicação do chef Anthony Bourdain para o que vêm a ser os tais bônus ou papéis que enriqueceram investidores mundo afora: um suculento refogado de cortes de peixe recusados para compor o prato principal. Mistura-se tudo no panelão e entorna-se goela abaixo do trouxa que acreditou na solidez do mercado imobiliário americano e internacional. 




Um elenco de estrelas conta essa história de carochinha das hipotecas com brilho singular. Gosto de Christian Bale como o investidor bizarro e antissocial que começa a apostar contra o mercado. Steve Carrell compõe com o talento habitual o cara angustiado com o horror que se aproxima, mas que também não quer se dar mal. Brad Pitt faz o gênero "good guy arrependido" que sem deixar o bom mocismo de lado, entra no jogo para enriquecer dois jovens discípulos e ainda colocar mais unzinho no bolso.

A montagem de Hank Corwin é tão ágil quanto os diálogos pra leigo nenhum entender. São falas que plantam gradualmente, em nossos cérebros fatigados, a semente da náusea. Um enjôo nauseabundo com gosto de atraso - quase oito anos depois. A diferença é que  em 2016 sabemos que praticamente todos os bandidos, além de se safarem, ainda receberam um generoso socorro do Sistema. 

Vai mais um chazinho? Ou prefere a vitamina? 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

MAKING A MURDERER, UM DESAFIO PARA O BOM SENSO


Por esses dias um amigo querido, Ricardo Soares, usou a palavra "instigante" para definir um filme que o agradou e que ainda não vi, THE LOBSTER. Eu empregaria a mesma palavra em relação a MAKING A MURDERER, a impressionante série em dez episódios exibida pela Netflix. Uma porrada no estômago, um tapa na cara, um chute no traseiro, todas essas sensações acumulam-se durante as dez horas de exibição. 


MAKING A MURDERER coloca o espectador diante de um desafio: acompanhar uma história que teve um começo injusto, uma metade aparentemente resolvida e um fim ainda por ser construído, apesar do triste prognóstico atual. 

As diretoras Moira Demos e Laura Ricciardi botaram pra quebrar. Dedicaram dez anos de suas vidas ao caso de Steven Avery, um jovem injustamente preso, durante 18 anos, acusado de estupro, libertado e em seguida novamente preso e condenado a prisão perpétua por homicídio. Um trabalho impressionante de registros, entrevistas, filmagens, áudios gravados e uma edição final que mostra que a "montagem" da realidade pode servir a várias interpretações - para o bem e para o mal. 

Poucos roteiristas imaginariam uma história tão intrincada e complexa como a que se revira nervosamente diante dos nossos olhos. Faz o Sistema, sim, os tais sistemas judiciário e policial parecerem uma quadrilha de malfeitores empenhados em não permitir que o bem aflore, sob nenhuma hipótese.


Acompanhar as versões da história de Steven Avery me lembrou a disputa de opiniões que se desenrola nas redes públicas. A maioria não quer ouvir o que o outro poderia ter a dizer ou mostrar. O objetivo parece ser apenas o de marcar um território invisível em que os dois lados atiram pedras e palavras.

Muito mais pesado, MAKING A MURDERER traz um sistema cruel que busca a condenação, raramente a absolvição. Um universo jurídico que alimenta a vingança e manipula o conservadorismo moral e emocional dos habitantes de uma cidadezinha no interior do Wisconsin, nos Estados Unidos.  


Como brasileira que desconfia do comportamento da nossa polícia, um fato me chamou a atenção na série: nas pequenas cidades norte-americanas, acusar policiais de corrupção - distorcer a cena de um crime, plantar provas, etc -  pode provocar indignação e revolta na população que ainda acredita que os chamados defensores da lei são os "mocinhos" da história. O lado podre tem essa consciência e trabalha para ativar, nas pessoas, essa sensação de ultraje. Incrível como entre nós a rotina da maracutaia policial não impacta e nem impressiona.

MAKING A MURDERER é o século 21 mostrando que a cegueira moral é tão destrutiva quanto uma arma letal apontada para as nossas cabeças. 
   

sábado, 9 de janeiro de 2016

SPOTLIGHT : PEDOFILIA E INVESTIGAÇÃO

Feliz ano novo! Que 2016 seja um ano criativo e produtivo para todos.

Gosto de entrar no escurinho e, na hora de encarar novamente a luz do dia, ter a sensação de que o filme foi estimulante e me deixou com vontade de sair do cinema e sorrir diante do fato de que sim, continuamos por aqui, vivos, atentos e cercados de pessoas talentosas que nos encantam com suas criações.

SPOTLIGHT, de Thomas Mc Carthy, exerce esse poder. E mais: faz você se endireitar na cadeira para não perder os detalhes do ótimo roteiro escrito por Josh Singer e pelo próprio diretor. 


O filme toca especialmente os jornalistas.  Talvez ainda mais os da velha guarda, como eu. Se mais não fosse, apenas pelo raro prazer de testemunhar e de participar, ainda que na ficção, de um trabalho de investigação realizado em equipe, sem frescuras ou ataques de estrelismo de seus integrantes. Um fato para ser comemorado em tempos de notícias fabricadas, requentadas e não checadas. Um tempo em que a internet já se configurava como uma ameaça aos jornais impressos, embora não de forma avassaladora, como constataríamos depois.  

O tema é especialmente angustiante: o abuso sexual de crianças em dezenas de paróquias de Boston, Estados Unidos, ao longo de muitas décadas. Pedofilia no seio da Igreja e, por isso mesmo, pecado protegido pela instituição e pela alta sociedade bostoniana - católica de formação e hipócrita no acobertamento de crimes cometidos por padres em pleno exercício de suas funções educadoras ou litúrgicas. 

Atores e repórteres durante o Festival de Toronto, no Canadá.
O time de atores enche os olhos do espectador. Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Brian d'Arcy James e Liev Schreiber quase nos convencem de que são mesmo editores e jornalistas investigativos do caderno Spotlight, do jornal Boston Globe. A postura, a dedicação e o trabalho duro de apuração dos fatos estão ali, sem firulas e sem glamur. E Stanley Tucci, na pele de um advogado solitário e abnegado, deixa claro porque é um dos melhores  - e menos reconhecidos - atores de sua geração. 

A impaciência, a pressão, a decepção, o medo, a insistência, a indignação, a ansiedade,  todas essas sensações acompanham os personagens e a plateia durante os 128 minutos de projeção. Trata-se de um filme sobre o processo de produção e construção de uma história de múltiplos abusos sexuais que abalou o mundo e provocou várias mudanças, talvez menos do que as necessárias,  na cúpula da igreja católica. É essa a história que Thomas Mc Carthy quer contar.      

Ninguém é herói, o dramalhão não tem vez e os depoimentos das poucas vítimas funcionam como um reforço para o conjunto de denúncias que serão publicadas. Um único padre acusado revela, entre outras frases impactantes, que também foi abusado na infância. Pano rápido e pausa para o olhar incrédulo da repórter.

Jornalista investiga. Muitas vezes o trabalho é intelectual. Outras tantas o serviço pode ser entediante porque exige do profissional humildade para correr atrás da informação necessária. O que pode significar dias e dias de telefonemas e pesquisas em arquivos, relatórios e formulários. Até de repente descobrir que........ Bingo, os dados estão ali e confirmam as hipóteses levantadas até aquele momento. Alegria imensurável diante da constatação. A equipe comemora.

Todo jovem jornalista deveria assistir a SPOTLIGHT. Nem que seja pra comentar com amigos depois da sessão: "como eram trouxas aqueles repórteres. Todos se ajudavam e só não queriam que o concorrente desse a matéria antes deles. Mas e o melhor do time, não era premiado?". 

Prêmio era sair e tomar um porre gostoso com os amigos. 
E depois ganhar um Pulitzer e sair pra tomar mais um porre.



  

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

QUANDO O SABOR DA VIDA PEGA FOGO!


Demorei para querer escrever sobre PEGANDO FOGO (Burnt), a saga culinária do americano John Welles. Foi preciso assistir ao japonês SABOR DA VIDA para que tudo adquirisse um outro sentido em matéria de sensibilidade, se é que posso definir assim as diferentes emoções provocadas pelos dois filmes.

A receita de BURNT (PEGANDO FOGO)  é manjada. Nos cinco primeiro minutos de projeção já sabemos que se trata de um " filme redenção", uma jornada com pit stop no purgatório para que nosso herói Adam Jones (Bradley Cooper) consiga redimir-se das besteiras e mágoas que espalhou ao longo de sua atormentada trajetória. 

Tenho uma amiga chef, a querida Fernanda Valdivia, e assim que saí do cinema fiz a pergunta óbvia: então é assim mesmo? Tirania e crueldade em potências infinitas? Gordon Ramsay fez escola ou essa hierarquia maluca sempre incorporou a loucura dos chamados estrelados? 

Pois Fernandinha garante que sim, a neura é real.Mais do que deveria ser, segundo ela, mas quem ama e tem tesão pela profissão sabe exatamente o que sente e como vive o perturbado chef Adam. Palavras de chef que ainda vou reproduzir aqui no blog. Aguardem.

SABOR DA VIDA, da diretora Naomi Kawase, também mexe com o paladar. E junto com o sabor aguça a audição, a visão e o discernimento. Uma aula de humildade. 


Delicadeza e respeito estão presentes em todos os diálogos. Tokue (Kirin Kiki), aos 76 anos, domina a arte de preparar uma pasta de feijão azuki inesquecível. Seu chefe, Sentaro (Masatoshi Nagase), tem uma história de vida triste e o sorriso não faz parte de seu dia a dia. Ele vende dorayakis, panquequinhas, recheadas com uma pasta de feijão comprada pronta e sem nenhum brilho. Um quitute razoável, mas bem distante da perfeição.

Só podia mesmo ser um filme japonês, adaptado do romance AN, de Durian Sugekawa, publicado em 2013. A pasta de feijão vermelho doce é conhecida como AN.

O espectador quase sente o cheiro do feijão que cozinha no panelão. E a reverência de Tokue diante do alimento é emocionante porque traz à tona uma devoção, ou paixão, se preferirem, que, martelados pela rotina, muitas vezes deixamos de colocar em prática nas atividades que exercemos. 

Os pequenos detalhes  são importantes. O passar do tempo chega, até nós, pelas cores das árvores, pela presença - ou não - das flores, pelo ritmo dos ventos e pelo calor ou frio das estações do ano. Mas é a lembrança do preconceito que humaniza ainda mais as relações em SABOR DA VIDA. Ignorância que existe e ainda é poderosa em pleno Japão do século 21. 

A descoberta de Sentaro e da adolescente Wakana (Kyara Uchida) transforma a vida de ambos. E nós, espectadores, ficamos morrendo de vontade de conhecer e aprender vários segredos com Tokue. Melodrama? Talvez. Mas principalmente um drama bem humorado e com belas imagens típicas - das cerejeiras em flor às orquídeas que passeiam diante de nossos olhos na telona.

PEGANDO FOGO bem que podia pegar emprestados o respeito e a delicadeza de SABOR DA VIDA. Faria um bem danado ao angustiado Adam Jones. Já Sentaro, o anti-herói de SABOR DA VIDA, seria um homem mais feliz se aprendesse com o personagem de Omar Sy, de PEGANDO FOGO, só um pouquinho sobre o ódio e a arte da vingança.

Pausa para risadas politicamente incorretas.

Pairando acima do bem e do mal, com sua colher de pau, reinaria a senhora Tokue, compreensiva com os apaixonados e impaciente com os conformados. Dos dois filmes.



  
    


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O CLÃ

Entrar na sala de projeção e assistir às primeiras cenas de O CLÃ é comprometer-se com alguns sentimentos desconfortáveis. Revolta e indignação, por exemplo. Você fica pasmo diante de tanta frieza e incrédulo com algumas consequências letais da psicopatia humana. Nada é por acaso. Carinho e manipulação podem estar umbilicalmente interligados. Forever.

Pablo Trapero já disse a que veio faz algum tempo. Em seu mais recente ABUTRES escancarou a máfia dos seguros automotivos. Agora produz um suspense baseado em fatos reais. O caso Puccio escandalizou a argentina na década de 80 e já é o maior recorde de público na história do cinema argentino. 

O diretor fez um filme político, apesar das ações da família Puccio não terem como alvo os grupos clandestinos perseguidos , torturados e mortos pela ditadura argentina (1976 a 1983). Mas a conivência é clara e está presente em todo o filme.
Bandeirosa, a cumplicidade das Forças Armadas só diminui já nos últimos suspiros do regime de força e em plena era Alfonsín. E só então é possível enquadrar , prender e julgar os responsáveis.

O ex-presidente Alfonsin discursa na TV e enche de desencanto e desprezo o rosto de Archímedes, interpretado com devoção por Guillermo Francella, que os brasileiros conhecem por um papel coadjuvante em outro filme portenho, O SEGREDO DE SEUS OLHOS. Os olhos verdes do ator absorvem a loucura e transmitem todo o poder do mal que nós, humanos, somos capazes de cultivar e nutrir. Perversidade acalentada sem culpa por um dos personagens mais sombrios do cinema contemporâneo.

O suspense é mantido até os instantes finais, quando os letreiros finalmente esclarecem o destino dos integrantes da família Puccio. Uma fotografia em tom pastel acompanha o ambiente soturno e as imagens de horror, testemunhadas apenas algumas poucas vezes pelo espectador. Junte-se a tudo isso uma trilha sonora vibrante e em desalinho completo com o ambiente de loucura em que todos estão imersos e temos um belo filme. 

Merecido Urso de Prata para melhor diretor, este ano, em Berlim.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

EM TRÊS ATOS, O CORPO, A MORTE E A DESPEDIDA

Escrever embalsama o passado.  

Acho a frase incrível, ainda mais pronunciada com todas as letras e sílabas por Nathalia Timberg.
Quem escreveu foi Simone de Beauvoir. Quem bebeu nas letras da francesa revolucionária foi outra guerreira, a cineasta Lucia Murat. 

Desta vez a diretora de filmes como QUE BOM TE VER VIVA e A MEMÓRIA QUE ME CONTAM, entre outros, trouxe a velhice e a morte para o palco do cinema. EM TRÊS ATOS, somos aprisionados voluntariamente pela poesia do roteiro, pela beleza da fotografia, pelo vigor da montagem e pela força da dança de Angel Vianna e Maria Alice Poppe. Setenta e seis minutos de pura imersão no corpo, na morte e na despedida.


Lucia Murat segue fazendo um trabalho político e engajado. A diferença é que em vez das feridas e cicatrizes dos anos de chumbo, mergulhamos no universo do envelhecimento e da finitude. Somos testemunhas da contemporaneidade dos textos de Simone de Beauvoir, escritora morta em 1986 que virou de cabeça pra baixo os conceitos do feminino com o livro O SEGUNDO SEXO, de 1946, e a própria concepção de velhice, descrita e analisada com maestria em A VELHICE, de 1970.

A cineasta carioca foi buscar em dois livros da francesa (A VELHICE e UMA MORTE MUITO DOCE) o mote de seu roteiro. Junto com Nathalia Timberg  e Andréa Beltrão, Lucia faz ficção como se fosse documentário. É que os textos de Simone, para os mais desavisados, soam como depoimentos nas vozes das duas atrizes que interpretam um único personagem - na velhice e na idade adulta.

Com muito silêncios interligados apenas pela inspirada coreografia de duas bailarinas de gerações diferentes, extraída do espetáculo de dança QUALQUER COISA A GENTE MUDA, de João Saldanha, o filme transborda emoção e provoca  memórias. E é instigante porque traz o velho para o centro de uma sociedade que ainda tem medo de olhar para a velhice e para a morte.

Preste atenção nas imagens do corpo em estado de velhice pura. Poucas vezes o super close esteve tão a serviço da sétima arte. Não deixe de ver, mesmo que ainda não tenha chegado aos 40.   


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

FILMES QUE FAZEM SUCESSO... MAS NÃO ME AGRADAM


Fiquei uma semana sem aparecer por aqui porque tenho uma enorme dificuldade para escrever sobre filmes que não me agradam. Filmes que não correspondem às expectativas que deposito nesse ou naquele diretor ou roteirista. Ou películas de origem desconhecida que poderiam enriquecer o meu universo cinematográfico, mas acabam provocando enfado ou irritação. 

Foi um pouco de tudo isso que senti ao assistir MISTRESS AMÉRICA e SEM FILHOS. 

O que dizer da nova empreitada do diretor novaiorquino Naum Bambach e de sua musa, a atriz Greta Gerwig? Juntos, eles emplacaram FRANCES HA, em 2012, e agora apostam em MISTRESS AMÉRICA e no talento histriônico de Greta. Antes, Bambach também dirigiu o intrigante LULA E A BALEIA e, recentemente, o simpático ENQUANTO SOMOS JOVENS.

O que não me agrada em Mistress América é a essência do personagem de Greta Gerwig. Faltou sutileza ou sobrou alguma outra intenção na construção de Brooke, uma balzáquia arrogante e egoísta, incapaz de ouvir qualquer outra pessoa que não o próprio ego. Atualíssimo, pero aburrido. 

O filme foi elogiado e o quarentão Naum Bambach é sempre comparado, por alguns críticos, a Woody Allen. Não creio que Woody se identifique com os excessos de uma crítica social que parece não chegar a lugar nenhum. Já LULA E A BALEIA, de 2005, deve ter enchido de orgulho o mestre novaiorquino. 

Bom, é ver pra crer, não é mesmo? 

E aproveito o espaço para fazer uma observação também pouco elogiosa ao argentino SEM FILHOS,de Ariel Winograd: uma comédia romântica que começa com diálogos muito perspicazes e aos poucos vai caindo no batidão de "pai divorciado, com uma filha que mora com ele, namora moça que não quer ter filhos e por isso inventa muitas mentirinhas pra não perder a amada".   

O filme continua em cartaz no Rio. Mas podia ser muito mais. Não perco a fé na cinematografia portenha. 





terça-feira, 1 de dezembro de 2015

CAMINHO DE VOLTA

Caminhos de ida ou de volta sempre me emocionam, sejam eles em linha reta, cheios de curvas ou recheados de labirintos. São caminhos. E quando iniciamos um processo de escolha sobre os atalhos que vamos seguir, algo muda radicalmente na maneira como passamos a enxergar e a vivenciar  as experiências que acompanham a decisão ou a falta dela. 

Processos de decisão filmados me atraem porque são uma presente para a plateia que, no escurinho do cinema, pode identificar em si mesmo uma empatia qualquer com o que se passa na telona. E isso é muito bom. 

Os dois personagens de CAMINHO DE VOLTA provocam essa empatia. Duas pessoas com personalidades e vivências muito diferentes, mas que são identificadas pelo espectador como "alguém como eu". Estamos diante de dois homens comuns, no melhor sentido da palavra, que abrem, diante das câmeras, suas dúvidas, frustrações e esperanças. 

O documentário de José Joffily e Pedro Rossi é uma empreitada familiar. Os dois diretores contaram, em entrevistas realizadas durante o lançamento do Festival "É Tudo Verdade" (abril deste ano), que muitos personagens foram pesquisados durante o período de pré - produção. Só que dois dos escolhidos estiveram o tempo todo diante deles: a sogra e o cunhado de Joffily. E não é que essa intimidade deu certo?

Esse é um filme que me atraiu pelo conteúdo. É claro que a direção de fotografia estabeleceu um critério de ação, mas há outros ingredientes de improvisação - como câmeras na mão de quem nunca gravou nada antes - que só fazem enriquecer a narrativa. 


Algumas cenas são tocantes e poderiam fazer parte de um romance ou de um estudo antropológico sobre o relacionamento entre seres humanos. O mais gostoso, porém, é que são pessoas prestes a tomar - ou não - a decisão mais importante de suas vidas naquele período de tempo em que o documentário é realizado. 

Nós somos as testemunhas e torcemos por elas.         

sábado, 28 de novembro de 2015

CHICO - UM ARTISTA BRASILEIRO

Parem as máquinas, suspendam as contra-indicações e encarem a real: assistir ao filme de Miguel Faria Jr é, antes de tudo, entregar-se à fruição do prazer. E nada atrapalha essa curtição. Dá pra tietar sim, sem culpa ou cobranças por algo mais polêmico ou inquiridor. 

Nãnaninãnã! O objetivo do diretor não era encostar Chico na parede e faze-lo confessar as causas profundas e inconscientes do final de seu casamento ou de seu afastamento da política partidária. A intenção do diretor, creio, foi deixar o amigo à vontade para discutir temas variados que recheiam uma história de vida intensa e constantemente questionada pelo próprio entrevistado. 


É a montagem de Diana Vasconcellos que transforma o espectador em cúmplice. Estão ali os Chicos que conhecemos, mas também um homem que indaga sobre sua produção no passado e tenta prever, com humor, o que poderá ser o seu futuro como compositor e escritor. 

Além do belo enquadramento do rosto de Chico, by Lauro Escorel, o que arrebata de primeira é o espetáculo musical que afaga todos os sentidos. Nada é óbvio. A escolha das músicas, nem sempre famosas, surpreende e emociona. É como se saíssemos da sala de cinema direto para a casa de shows. E a cada número um aplauso entusiasmado. 

As mulheres de Chico estão nas vozes de Martnália, Mônica Salmaso, Laura Garin, Adriana Calcanhoto e no tom cristalino de Clara, a neta de Chico. Mas, pausa para a emoção: o que é Carminho, a sensacional cantora portuguesa, interpretando "Sabiá"? Êxtase puro. 

E o que dizer das apresentações de Ney Matogrosso e Milton Nascimento - em dueto sublime com Carminho - e do próprio Chico? Melhor o silêncio, leitor. Assim, a experiência será ainda mais impactante e duradoura. 

Durante os 110 minutos de projeção compartilhamos as memórias, a imaginação, os questionamentos e as ponderações de Chico. Você pode até não concordar com algumas revisões do passado, mas vai gostar de ver, na telona, esse homem de 71 anos que revê sua caminhada com leveza, crítica e compaixão pelo menino que já foi. 

As presenças de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Bibi Ferreira - todos respirando juventude e exalando talento - enriquecem o filme e tornam ainda mais saboroso testemundar a trajetória única de Chico. 

São quase duas horas para viver e relembrar, junto com Chico Buarque de Holanda, o Brasil dos últimos 50 anos. Compre seu ingresso e se acomode na poltrona. É bom demais.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

AWAKE - A VIDA DE YOGANANDA

Alguns filmes têm a virtude de, terminados, provocar no espectador a vontade de saber mais. Aconteceu comigo depois de ver AWAKE - A VIDA DE YOGANANDA. 

Conhecia muito pouco sobre a vida desse iogue e guru que nasceu em 1893, na India, e morreu em 1952, em Los Angeles. E então,depois de assitir ao filme, cheguei em casa e descobri uma frase, do próprio Yogananda, que traduz a sensação que me acompanhou durante toda a projeção:


"A melhor coisa que você pode fazer 
para cultivar a verdadeira sabedoria 
é praticar a consciência 
de que o mundo é um sonho". 

Esse homem que saiu da India para levar sua mensagem à estranha terra do tio Sam, nos anos 20 do século passado, está ali, na tela, em raros fotogramas que o tornam real para o espectador, e na narração marcante do ator Anupam Kher, estrela de Bollywood, que dá voz a Yogananda,sempre na primeira pessoa. 

Sentado no escurinho, você é testemunha de uma viagem espiritual narrada pelo próprio guru, com depoimentos tocantes de muitos de seus discípulos, entre eles o ex-Beatle George Harrison, o músico Ravi Shankar e o pensador e escritor Deepak Chopra. 

Dirigido por  Paola de Fiori e Lisa Leeman, veteranas premiadas no Sundance Festival e indicadas ao Oscar por trabalhos anteriores, AWAKE é uma homenagem, mas também uma proposta de resgate dos ensinamentos do guru Yogananda que, entre outros, escreveu o livro " Autobiografia de um Yogue" (1946), clássico que inspirou milhares de seguidores em todo o mundo. 


Yogananda trouxe para o Ocidente os ensinamentos da meditação e da prática da Kriya Yoga. E nessa passagem de 15 anos pela América conheceu o preconceito racial, a intriga de antigos companheiros e a exaustão diante da tarefa que lhe foi incumbida pelo próprio mestre.

Com parcialidade e reverência, Paola e Lisa mostram o choque e o impacto da espiritualidade hindu na alma americana. E plantam, no espectador receptivo, a vontade de expandir fronteiras em busca de mais humanidade e paz para a alma. 

Boa pedida em tempos de radicalização e intolerância extremas.    

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

HIPÓCRATES


O filme é francês, o diretor é médico e o tema é sim muito familiar aos brasileiros que dependem do Sistema Unico de Sáude. Um filme quase todo rodado dentro de um hospital com personagens que provocam empatia ou antipatia, mas prendem a atenção do espectador.   

Com episódios da série House sempre na tela dos monitores de TV, Thomas Lilti construiu um filme que faz crítica social, é engraçado mas também pode fazer chorar. 

E sim, na França, aparelhos simples como um eletro, por exemplo,  também carecem de manutenção. Lá, o chefe controla e até manda retirar a morfina que alivia as dores horríveis de uma velhinha que só quer morrer em paz.

O administrador do hospital é um burocrata facilmente reconhecível e os protegidos, mesmo quando pisam feio na bola, também ficam impunes. Sobra, é claro, para o médico argelino, aquele que trabalha com dedicação e afinco, mas não consegue vencer as barreiras impostas desde sempre. Ganha menos, sofre um preconceito aparentamente "light" dos colegas e na prova dos nove vira bode espiatório.

Alguns personagens são especialmente cômicos, outros até poderiam ter recebido um melhor tratamento dos roteiristas. Mas no conjunto, HIPÓCRATES diz a que veio. Entretém, cria vínculos com a plateia e faz pensar no labirinto de dificuldades que é a saúde pública aqui, em terras tupiniquins ou lá, na pátria do velho Obelix.       

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CHATÔ, O REI DO BRASIL

O filme começa com festa para os olhos e ouvidos. Uma fotografia exuberante para um personagem que parece ter saído de alguma farsa quase prima-irmã de Macunaíma. 
Achei que Zé Celso Martinez fosse dar o ar de sua graça em pleno set, atraído pelas extravagâncias dionisíacas de Assis Chateaubriand, o empresário que sonhava ser o rei do Brasil.

Não li o livro de Fernando Morais, mas li muito sobre a saga de Guilherme Fontes à frente de seu projeto que, em vários momentos, pareceu inexequível. Isso quer dizer que assisti ao filme sem aquela sensação incômoda de, mesmo sem querer, comparar o resultado cinematográfico com o material autoral que o inspirou.

Se me permitem, preparem-se para uma viagem no tempo. Atores famosos - ontem e hoje - muito mais jovens e, entre eles, alguns que já nos deixaram nesses vinte anos que separam filmagens e exibição. Juventude que também era a nossa em 1995. Um tempo que acompanhou a história recente do Brasil mas deixou outro, mais antigo, adormecido nas latas de filme e na posterior edição digital. Um sono agitado que agora desperta no escurinho do cinema, em 2015.

Marco Ricca veste o seu Assis com cinismo e deboche. A sensação, desde os primeiros minutos, é de que estamos diante de uma comédia rasgada. Sentimento interrompido, vez ou outra, pelas surpresas e viradas embutidas no roteiro. Uma história contada sem compromisso com a linearidade. Uma trama que envolve pelo pitoresco, pelo "over" e pelo inusitado.

O Getúlio Vargas de Paulo Betti transforma o homem que se suicidou num ditador falastrão, frágil e quase atraído pelo sexo feminino. Um personagem sem a depressão daquele vivido por Tony Ramos em outro filme recente. O que me fez imaginar, de imediato, como teria sido um Getúlio Vargas da vida real que combinasse características tão opostas.

CHATÔ, O REI DO BRASIL impressiona como resultado da construção de seu personagem título: um homem grosseiro, amoral, inescrupuloso, violento, narcisista daqueles de quebrar o espelho, machista como ainda o são muitos coronéis nordestinos e priápico por opção, com a ajuda de remedinhos fitoterápicos da época.

Tudo é exagerado. E a solução encontrada para compor e decompor o Chatô de Guilherme Fontes é interessante. A partir do último dia de vida de Assis Chateaubriand vemos um desfile onírico que projeta, na telona, as diferentes fases da existência de um dos maiores empresários de comunicação que o Brasil já conheceu.

Andrea Beltrão incorpora a sensacional e atualíssima Vivi, personagem que nos acompanha desde sempre em terras tupiniquins. Com ela e a partir dela testemunhamos a naturalidade com a qual se corrompe ou se é corrompido. 
A ética está enterrada em algum cofre dos Diários Associados e a política vigente não demonstra vocação alguma para a honestidade. 

CHATÔ é um filme abusado. O Assis Chateaubriand desbocado faz pouco dos princípios que nós, tolinhos, acreditamos como possíveis. Só a linda voz de Letícia Sabatella, ao microfone, projeta alguma candura sobre uma trama que pode ser curtida se deixarmos de lado a vontade de resolver o quebra-cabeça montado, com inteligência, por um roteiro que passou pelas mãos de Carlos Gerbase, Matthew Robbins e tratamento final escrito pelo então ainda pouco conhecido João Emanuel Carneiro, autor do sucesso  "Avenida Brasil" e da atual novela das nove, na Globo, "Regra do Jogo".   


Valeu a pena esperar? Valeu. Mas a vontade que deu - jornalista tem dessas coisas e acho que Fernando Morais não vai se chatear - depois dos créditos finais foi ler o livro como uma espécie de complemento do filme. Entender direitinho vários aspectos, em ordem cronológica, da vida desse homem que dizia sem ficar vermelho: " empregado não tem opinião. Quer dar a sua? Compre o seu jornal". 

E aí, vai para o trono ou não vai? Chacrinha também estava lá.
  



sábado, 14 de novembro de 2015

DEEPHAN: REFÚGIO E DESESPERO NA PERIFERIA DE PARIS

Demorei para escrever sobre DEEPHAN: O REFÚGIO, vencedor da Palma de Ouro deste ano, em Cannes. Saí do filme com a sensação de que temas demais estavam ali, expostos ao espectador. Foi difícil concluir: gostei do filme? Gostei muito? Mais ou menos ou mais pra menos que pra mais?
Gostei. Ponto.

Então cheguei em casa e fui pesquisar. Queria entender a história recente do Sri Lanka, já que é com uma cena devastadora que tem início o filme do diretor Jacques Audiard.

Demorei  para escrever e ontem, 13 de novembro, depois do ataque terrorista que matou mais de uma centena de pessoas em Paris, achei que estava na hora. O filme é ficção, mas quando a violência da ficção encontra a violência da realidade é hora de pensar ainda mais sobre a barbárie que se descortina todos os dias diante de nossos olhos, neste século 21. 

De 1983 a 2009 uma guerra civil matou mais de 150 mil pessoas no Sri Lanka ( 70 mil, segundo números oficiais), resultado de um conflito sangrento entre as etnias tâmil e cinigalesa. Já nos anos 80, o grupo extremista tâmil TLLE foi classificado como terrorista por vários países, Brasil inclusive. Na época, já era considerado um dos mais perigosos do mundo por conta dos métodos utlizados: homens-bomba, execuções com requintes de crueldade e outros detalhes conhecidos por quem vive e testemunha as atrocidades cometidas pela intolerância neste século 21.  

Bom, você não vai ver nada disso na saga do trio que finge ser uma família para fugir do Sri Lanka e conseguir refúgio político na França. Mas conhecer alguns detalhes sobre a vida do protagonista, Deephan, interpretado por Jesuthasan Antonythasan, pode deixar o filme mais saboroso e, por que não, mais interessante. 

Jesusthasan, o ator, foi um guerrilheiro tâmil na adolescência. Depois de romper com o grupo extremist esteve em alguns países até entrar na França com um passaporte falso, em 1993, e conseguir asilo político. Lá, começou a escrever no idioma tâmil  sobre suas experiências como guerrilheiro, sob o pseudônimo de Shoba. Hoje é um escritor relativamente conhecido. Seus livros já foram traduzidos para o inglês, ele ainda fala mal o francês e tem medo de retornar ao Sri Lanka em virtude dos ataques que ainda persistem contra a minoria tâmil. 

Foi então nessas circunstâncias que Jesusthasan, de 48 anos, 22 vivendo na França, recebeu o convite de Audiard, que já o conhecia, para viver o angustiado e inescrutável Deephan. 

Muito já foi escrito sobre o vencedor da palma de ouro. Mas deixo aqui a impressão que me acompanha até agora, quase duas semanas depois de ter assistido ao filme: além de ter que encarar uma viagem perigosa de barco com uma família falsa, a dificuldade de entender um novo idioma e as diferenças culturais que se manifestam no simples ato de comer com as mãos, a história dá um tapa na cara do espectador quando mostra que abandonar a cena de carnificina numa selva distante não significa encontrar uma vida mais pacífica nas habitações populares de um subúrbio de Paris. Longe disso.

Jacques Audiard garante que a violência e a tensão que dominam o condomínio onde Deephan se emprega como zelador não passa de ficção. OK. Mas alguma inspiração nas  revoltas da "banlieue" parisiense deve ter sido injetada nas veias do diretor. E quem mora no Rio de Janeiro já viu aquelas cenas em algum lugar.....não muito distante de onde vive.

O diretor vencedor diz que a essência de seu filme é sobre um homem que não sabe falar de amor. Sim, pode ser. Principalmente quando o roteiro dá uma guinada e temos a impressão de que Charles Bronson vai sair da tela atirando para todos os lados. Ou quando Deephan, bêbado, canta seu coração despedaçado. Não fosse a trilha sonora, sensacional, as cenas seriam dispensáveis para o bom andamento da trama.  

Preste atenção na atuação das duas atrizes que compõem a família "pra inglês ver": Kalieaswari Srinivasan e a menina Claudine Vinasithamby. Com interpretações minimalistas, elas ampliam a tensão e o espírito desolado de Deephan.

O final surpreende. Os personagens parecem sair do inferno para encontrar a felicidade logo ali, depois da fronteira. Será um abuso da ficção? Ou uma crítica contundente ao país de François Hollande e Marine Le Pen?    
Sei lá, mil coisas. 
     



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

NA ONDA DA CORRETAGEM IMOBILIÁRIA


RUTH & ALEX poderia ser um filme sobre casamentos duradouros e relações harmoniosas.
Também poderia explorar o envelhecimento de um típico casal novaiorquino de classe média. Ou ainda mostrar os obstáculos vividos por Ruth e Alex , ela branca, ele negro, ao longo dos últimos 40 anos. Mas não, nada disso. O diretor inglês Richard Loncraine estranhamente optou por uma história tipicamente americana, em que manias e preconceito enchem a tela e até mesmo o saco do espectador.

Loncraine prioriza a necessidade dos personagens de Diane Keaton e Morgan Freeman. Eles precisam vender e mudar de um belíssimo apartamento no Brooklyn. O motivo? Os lances de escada do prédio sem elevador deixam Alex e Dorothy, a simpática cachorrinha do casal, completamente extenuados.    


A partir dessa constatação, a plateia ou entra na onda imobiliária de Ruth e Alex ou começa a ficar com raiva dos corretores, uma categoria profissional retratada como um bando de histéricos sem ética e limites para conseguir, digamos, cumprir a meta do que lhes cabe vender. 

A talentosa Cynthia Nixon, a eterna Miranda de Sex and the City, coitada, passa o filme gritando um texto preconceituoso e revelador de como a sociedade em geral encara a velhice. Dá vontade de desenhar, pra que ela tente entender, que o casal em questão ainda não precisa de babás, babadores ou andadores.    

Sobre os conflitos provocados pelo racismo na época em que Alex e Ruth se casaram, a personagem de Diane Keaton faz apenas uma referência. Algo como "quando nos casamos nossa união ainda não era considerada legal". E ponto. Parágrafo. Segue o baile de amenidades. 

E então, entre " open houses", flashbacks e pequenos dramas familiares acompanhamos a saga de Ruth e Alex, dois idosos em busca de um apartamento com elevador em Nova York. 
Quer mais? Eu queria. Imaginei que o premiado diretor da série Band of Brothers e dos filmes Ricardo III e Winbledon fosse ao menos explorar, com humor britânico, a superficialidade e a mediocridade de vários aspectos da cultura do Tio Sam, especialmente o consumismo desenfreado. Mas não. A corretagem toma conta da telona e corre solta.

Você pode perguntar, depois desta crítica, se vale a pena ir até o cinema conferir RUTH & ALEX. Bom, eu fui, né mesmo? Gosto dos atores Morgan Freeman e Diane Keaton e também do cineasta Richard Loncraine, que tem uma carreira interessante. Mas nem sempre tudo é perfeito.